O cenário político mineiro foi abalado por um embate direto e acalorado entre o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) e a cúpula de seu próprio partido. Em uma entrevista coletiva concedida nesta quarta-feira em Divinópolis, o parlamentar confirmou sua determinação em manter a candidatura ao governo de Minas Gerais, contrariando abertamente a decisão do Republicanos de retirar seu nome da disputa. Acompanhado do ex-prefeito de Patos de Minas, Luís Eduardo Falcão, anunciado como seu vice, Cleitinho rechaçou as críticas da legenda com veemência, taxando-as de “conversa fiada” e elevando a tensão em um período crucial para a formação das chapas eleitorais no estado.
A declaração do senador se dá no epicentro da maior crise política de sua trajetória, justamente quando suas articulações para o governo de Minas Gerais ganhavam tração. Mesmo liderando pesquisas de intenção de voto, o Republicanos optou por afastá-lo, direcionando esforços para construir um acordo de apoio ao ex-secretário da Casa Civil Marcelo Aro (PP), em uma aliança estratégica com o Partido Liberal (PL). Este movimento de bastidor, que envolveu nomes de peso como o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) e o senador Rogério Marinho (PL-RN), selou a nova configuração, gerando um racha que agora se expõe publicamente.
A Reação de Cleitinho: Pesquisas e Dor Pessoal
Cleitinho Azevedo não poupou palavras ao rebater a nota divulgada pelo Republicanos, que tentava justificar o afastamento de sua candidatura. O senador enfatizou que sempre condicionou sua entrada na disputa à manutenção de sua liderança nas pesquisas, um critério que, segundo ele, foi plenamente atendido. “Não concordo com a nota do Republicanos. Ontem mesmo saiu uma pesquisa dizendo que eu lidero em todos os cenários”, afirmou, destacando a contradição entre a decisão partidária e o apoio popular que, para ele, representa a “voz do povo”.
O parlamentar também trouxe à tona aspectos pessoais, atribuindo a aparente demora em oficializar sua candidatura a um período de profunda dificuldade familiar. Ele mencionou o histórico de câncer em sua família e, em especial, a luta e o falecimento de seu irmão, Matheus Azevedo. “Eu só lancei minha candidatura agora porque minha família tem trauma com câncer. Meu irmão teve leucemia. Em janeiro voltou. Ele ficou mais de 40 dias internado no hospital. Eles não respeitaram nem o meu luto, nem a minha dor”, desabafou Cleitinho, em uma fala carregada de emoção que buscou humanizar sua posição diante da frieza das negociações políticas. As críticas dos dirigentes partidários foram respondidas com indignação: “Foi um bando de conversa fiada. Dizendo que estou com medo de ser candidato, de prometer e não cumprir. Eu não sou vocês, vagabundos. Eu não tenho lobby”, disparou, evidenciando o profundo ressentimento e a ruptura de confiança.
A Versão do Republicanos: Indefinição e Alianças Estratégicas
Por outro lado, a direção do Republicanos mantém sua versão, argumentando que a indefinição de Cleitinho ao longo dos meses inviabilizou a organização da chapa e a construção de alianças essenciais para a eleição. Segundo o partido, houve uma espera prolongada por uma manifestação clara do senador até a convenção estadual da legenda, que ocorreu no último sábado. A ausência de uma confirmação pública e efetiva, na visão da cúpula, forçou o partido a reorganizar seu projeto político em Minas Gerais, buscando alternativas que garantissem competitividade e alinhamento com a estratégia nacional da direita.
O estopim dessa crise, conforme relatado, ocorreu na noite de terça-feira, em um desencontro de tempos e agendas. Enquanto Cleitinho divulgava um vídeo nas redes sociais afirmando que aceitava a “missão” de disputar o governo, dirigentes do Republicanos e do PL já estavam reunidos com Marcelo Aro, Flávio Bolsonaro e Rogério Marinho, solidificando o acordo em torno da candidatura do ex-secretário. Essa simultaneidade de eventos foi interpretada pelo círculo íntimo de Cleitinho como uma “puxada de tapete”, uma traição política que desconsiderou tanto o engajamento do senador quanto suas circunstâncias pessoais.
Impacto na Direita Mineira
Nos bastidores, a imagem de Cleitinho Azevedo tem sido reavaliada. Dirigentes da legenda o classificaram como um político “instável”, preocupados com as sucessivas mudanças de posição sobre a candidatura, o que teria minado a confiança dos aliados. A preocupação estendia-se também à possibilidade de o senador, caso confirmado, adotar um discurso crítico à própria legenda durante a campanha, um cenário desfavorável à coesão partidária. A indefinição prolongada, conforme o Republicanos, gerou insegurança entre os parceiros políticos e dificultou a formação de uma frente unificada da direita em um estado-chave como Minas Gerais, que representa um dos maiores colégios eleitorais do país e é palco de intensas disputas por alianças.
Perspectivas e Desdobramentos
A postura desafiadora de Cleitinho Azevedo abre um precedente para uma série de desdobramentos imprevisíveis na política mineira. A manutenção de sua candidatura, mesmo sem o apoio oficial do partido, coloca o Republicanos em uma posição delicada, potencialmente fragmentando sua base e gerando confusão entre o eleitorado conservador que almeja a união das forças de direita. A decisão de Cleitinho, amparada nas pesquisas e em um apelo emocional à sua base, será testada não apenas nas urnas, mas também na capacidade de mobilização e articulação política que conseguirá fora da estrutura partidária formal.
A grande questão agora é como essa disputa interna influenciará a corrida eleitoral, beneficiando ou prejudicando os demais candidatos e as articulações já consolidadas. O rompimento pode tanto fortalecer a narrativa de Cleitinho como um candidato independente da velha política, quanto fragilizá-lo pela falta de tempo de TV, estrutura partidária e recursos financeiros. O tabuleiro político de Minas Gerais, um estado de grande peso eleitoral, está mais do que nunca em movimento, com suas peças se realinhando em meio a acusações e demonstrações de força.
Acompanhar os próximos capítulos deste drama político é fundamental para compreender as dinâmicas de poder e as escolhas que moldarão o futuro de Minas Gerais. O Capital MT continuará monitorando de perto cada desenvolvimento, trazendo análises aprofundadas e informação contextualizada para que nossos leitores estejam sempre um passo à frente no entendimento dos fatos que impactam nossa sociedade.
Fonte: https://oglobo.globo.com