Novas regras para publicidade de apostas: alertas sobre riscos passam a ser obrigatórios hoje

© Wagner Ferreira/Divulgação

A partir de hoje, 17 de julho, plataformas de apostas esportivas, as populares “bets”, passam a ser legalmente obrigadas a exibir alertas claros sobre os riscos inerentes aos jogos em todas as suas campanhas publicitárias. A medida, imposta pelo Ministério da Fazenda, visa proteger os consumidores e combater o jogo patológico, exigindo que mensagens como “Apostar pode causar dependência, faz você perder dinheiro e não é investimento” sejam visíveis e proporcionais ao tamanho dos anúncios, marcando um novo capítulo na regulação do crescente mercado de apostas no Brasil.

Essas advertências, que devem ocupar ao menos 10% das dimensões totais do anúncio e ser claramente legíveis, refletem uma preocupação crescente do governo com os impactos sociais e de saúde pública do setor de apostas. A regulamentação posiciona as campanhas de bets em um patamar de responsabilidade social semelhante ao já estabelecido para produtos como cigarros e bebidas alcoólicas, onde a comunicação persuasiva é equilibrada por avisos sobre os perigos do consumo. Tal paralelo sublinha a percepção oficial de que as apostas, embora legalizadas, carregam riscos significativos que demandam uma abordagem cautelosa na publicidade.

Ampliação da Fiscalização e Proteção ao Consumidor

A obrigatoriedade dos alertas é parte de uma estratégia federal mais ampla para endurecer a fiscalização sobre as apostas de quota fixa. Esta iniciativa complementa a Portaria nº 1.231, de julho de 2024, do Ministério da Fazenda, que já havia determinado a indicação explícita da proibição do jogo para menores de 18 anos e os riscos associados à dependência em todas as ações de marketing, inclusive no ambiente digital.

A nova legislação também impõe restrições rigorosas ao conteúdo das propagandas. Fica proibida a divulgação de anúncios que incentivem as apostas como uma forma fácil ou garantida de ganhar dinheiro, assim como a exibição de comentaristas com o intuito de influenciar diretamente o público a apostar. O objetivo é desconstruir a narrativa de “lucro rápido” frequentemente associada às bets e promover uma percepção mais realista e responsável da atividade.

O Alcance Multifacetado da Nova Legislação

As normas foram detalhadas em duas portarias distintas, publicadas em 10 de julho. A Portaria nº 1.964, do Ministério da Fazenda, formaliza a obrigatoriedade dos alertas, classificando a conscientização sobre os riscos de dependência e transtornos do jogo patológico como um direito do cidadão. Já a portaria interministerial MF/Secom/MJSP nº 73 estende a responsabilidade não apenas às operadoras de apostas, mas também a todas as empresas que de alguma forma divulgam, transmitem, distribuem, impulsionam ou veiculam ações de marketing relacionadas às bets.

Esta última portaria é crucial ao proibir a promoção de empresas de apostas não autorizadas pelo Ministério da Fazenda, bem como a utilização de hiperlinks, códigos promocionais, links de afiliados ou outros mecanismos que direcionem o usuário a agentes operadores irregulares. Adicionalmente, a legislação veta a veiculação de estratégias de apostas, prognósticos ou análises que, por sua proximidade com conteúdo editorial ou ação publicitária, possam induzir ou influenciar apostas. A exibição de apostas premiadas, inclusive em moeda corrente, também está proibida, para evitar a glamourização de ganhos e a falsa percepção de sucesso garantido.

O Papel dos Influenciadores Digitais e a Responsabilidade Compartilhada

A advogada especialista em direito empresarial, Fernanda Machado, ressalta que a responsabilidade em caso de descumprimento das novas normas se estende para além das casas de apostas. “Não são só as casas de apostas. Influenciadores, canais de transmissão. Enfim, todos os veículos que publicarem anúncios das bets também são obrigados a cumprir as regras, e quem não observá-las, pode ser responsabilizado”, explicou Machado em entrevista à Rádio Nacional AM.

A lembrança da advogada não é aleatória. Mesmo antes da vigência plena das novas regras, autoridades já haviam tomado medidas para responsabilizar influenciadores. Um exemplo notório é a Ação Civil Pública ajuizada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios contra a plataforma Blaze e a influenciadora Virginia Fonseca, apontada como “coautora” de “supostas práticas abusivas na divulgação de apostas esportivas”. Este caso emblemático destaca a crescente atenção das autoridades para a interface entre o marketing digital e as bets, especialmente quando há milhões de seguidores envolvidos.

Para Machado, o cerne das novas medidas é a proteção do consumidor, buscando conscientizá-lo sobre os riscos reais. Ela argumenta que as portarias buscam regular as propagandas para que não se confundam com opiniões pessoais, prática comum no universo dos influenciadores digitais. “Claro que as empresas vão argumentar que as pessoas estão jogando porque querem; que elas são maiores de idade e são responsáveis por seus atos. A Justiça, porém, vai observar se a empresa cometeu alguma irregularidade, inclusive na parte técnica, na programação [do jogo]”, concluiu a advogada, indicando que a responsabilidade pode ir além da simples publicidade, alcançando a própria estrutura e equidade dos jogos oferecidos.

Os Desafios da Impulsividade e o Impacto Financeiro

A questão da impulsividade, frequentemente explorada em campanhas publicitárias de apostas, é um ponto crucial sob a ótica da saúde financeira e mental. Para especialistas como Ahmed El Khatib, doutor em finanças e educação e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a facilidade de acesso às plataformas de apostas pode exacerbar comportamentos impulsivos, levando a decisões financeiras arriscadas e, em muitos casos, ao desenvolvimento de transtornos de jogo patológico. A ausência de alertas claros, no passado, contribuía para uma visão distorcida, onde o entretenimento se confundia com uma oportunidade de investimento ou ganho garantido.

A educação financeira e a compreensão dos mecanismos psicológicos por trás do jogo são essenciais. Os novos alertas buscam justamente criar uma barreira informativa que force o apostador a confrontar a realidade dos riscos envolvidos, diminuindo a probabilidade de escolhas puramente impulsivas. A expectativa é que, ao destacar que “apostar não é investimento” e que “faz você perder dinheiro”, o consumidor tenha uma base mais sólida para avaliar suas ações, mitigando os custos sociais e individuais associados à dependência e às perdas financeiras significativas que podem desestruturar famílias e indivíduos.

A entrada em vigor destas novas regras representa um passo significativo na proteção do consumidor brasileiro e na busca por um ambiente de apostas mais transparente e responsável. O Capital MT continuará acompanhando os desdobramentos desta e de outras regulamentações que impactam diretamente a vida dos cidadãos, oferecendo informação relevante e contextualizada. Mantenha-se informado com a nossa cobertura aprofundada sobre os temas que moldam o nosso cenário social, econômico e cultural.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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