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Governo publica regras que restringem publicidade de bets no país, visando proteção do consumidor

© Tânia Rêgo/Agência Brasil

Em um movimento que promete redefinir a paisagem da publicidade no bilionário mercado de apostas esportivas no Brasil, o governo federal publicou na noite da última sexta-feira (10) as novas e rigorosas normas para a divulgação das plataformas de bets. As medidas, que entrarão em vigor a partir de 17 de julho, buscam fortalecer a proteção do consumidor e impor maior responsabilidade ao setor, que cresceu exponencialmente nos últimos anos.

As novas portarias, emitidas pelo Ministério da Fazenda, em conjunto com o Ministério da Justiça e Segurança Pública e a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, tornam obrigatória a inclusão de advertências claras em todas as campanhas e expandem significativamente as restrições ao conteúdo das propagandas. O objetivo central é combater a glamorização das apostas e evitar que sejam percebidas como fonte de renda ou investimento, mitigando os riscos de dependência e endividamento.

A regulamentação da publicidade chega em um momento crucial. Após anos de uma operação em área cinzenta, o mercado de apostas esportivas foi formalmente regulamentado no Brasil pela Lei 14.790/2023, sancionada em dezembro do ano passado. Essa legislação abriu caminho para a concessão de licenças e a arrecadação de impostos, mas também impôs a necessidade de um arcabouço normativo robusto para assegurar a integridade do jogo e, sobretudo, a segurança dos apostadores. As regras publicitárias são, portanto, um pilar essencial dessa estrutura.

Alertas Compulsórios e o Modelo de Proteção

Uma das mais notáveis inovações é a obrigatoriedade de exibição de advertências do Ministério da Fazenda. Semelhante ao que já ocorre com produtos como cigarros e bebidas alcoólicas, as mensagens têm como meta conscientizar o público sobre os riscos inerentes à prática das apostas. Três opções de frases deverão ser alternadas em todas as campanhas de empresas autorizadas a operar no país:

• "Ministério da Fazenda adverte: Apostar pode causar dependência";

• "Ministério da Fazenda adverte: Apostar faz você perder dinheiro";

• "Ministério da Fazenda adverte: Aposta não é investimento".

Esses avisos não poderão ser discretos. A portaria estabelece que deverão aparecer na horizontal, de forma clara, legível e proporcional ao restante da publicidade, ocupando no mínimo 10% do comprimento ou do tamanho do anúncio. Essa exigência visual busca garantir que a mensagem de alerta não passe despercebida, confrontando diretamente a narrativa de ganhos fáceis frequentemente associada às apostas.

Limites ao Conteúdo e a Mensagem Proibida

Além das advertências, as portarias impõem uma série de vedações ao conteúdo das campanhas. O cerne das proibições é impedir qualquer associação das apostas com promessas irrealistas ou com soluções para problemas financeiros. Fica expressamente vedado:

• Apresentar apostas como investimento, fonte de renda ou solução financeira;

• Sugerir ganho fácil ou enriquecimento rápido;

• Criar senso de urgência para estimular apostas imediatas;

• Divulgar histórico de premiações ou ganhos para incentivar apostas;

• Induzir consumidores ao erro com informações falsas ou enganosas;

• Utilizar mensagens de cunho sexual, discriminatório ou ofensivo;

• Direcionar publicidade a crianças e adolescentes.

Tais proibições visam desmistificar a imagem construída em muitos anúncios que vinculavam o jogo a sucesso pessoal, social ou financeiro. A ideia de que o jogo pode ser uma prioridade de vida, ou um atalho para a riqueza, é frontalmente combatida, reforçando a importância da responsabilidade social na comunicação do setor.

O Fim dos "Palpites" de Especialistas

Um ponto de inflexão significativo para o universo das transmissões e análises esportivas é a restrição imposta a comentaristas e especialistas. A partir da vigência das portarias, esses profissionais não poderão mais utilizar sua autoridade técnica ou sua visibilidade para sugerir ou recomendar apostas específicas durante eventos esportivos ou programas de análise.

A norma proíbe categoricamente a divulgação de estratégias, análises ou opiniões que possam influenciar a realização de apostas em um determinado jogo ou mercado. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, já havia antecipado que a intenção é evitar que comentários técnicos se transformem em incentivos velados ao jogo, protegendo os espectadores de serem guiados por análises que podem ter interesses comerciais por trás.

Tolerância Zero contra a Ilegalidade e Penalidades Severas

As novas regras também se alinham à estratégia governamental de "tolerância zero" contra as plataformas de apostas ilegais. Veículos de comunicação, plataformas digitais, agências de publicidade e demais meios de divulgação ficam proibidos de veicular anúncios de empresas de apostas que não possuam autorização para operar no Brasil. Essa medida complementa ações recentes como a notificação de fintechs que movimentavam recursos de plataformas clandestinas e a derrubada de milhares de sites irregulares.

O descumprimento das normas por parte das empresas autorizadas poderá acarretar sanções administrativas severas, que incluem multas de até 20% do faturamento da operadora, suspensão da autorização de funcionamento por até 180 dias e, em casos de reincidência grave, a cassação definitiva da licença.

A responsabilidade se estende. A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) poderá aplicar multas de até R$ 14 milhões a veículos e empresas responsáveis pela divulgação de publicidade irregular. Além disso, as casas de apostas serão responsabilizadas caso influenciadores contratados descumpram as regras, com a possibilidade de remoção do conteúdo considerado impróprio. Essa abordagem abrangente visa coibir a publicidade enganosa em todas as suas frentes, garantindo um ambiente mais seguro e transparente para os apostadores.

O Impacto e os Próximos Passos

A implementação dessas novas diretrizes representa um divisor de águas para o mercado de apostas esportivas no Brasil. O setor, que se acostumou a uma liberdade publicitária quase irrestrita, terá que se adaptar a um cenário onde a responsabilidade e a ética na comunicação serão premissas inegociáveis. Para os consumidores, a expectativa é de uma maior clareza sobre os riscos envolvidos e um menor apelo a mensagens ilusórias.

O desafio agora reside na fiscalização e na efetividade das sanções. Com um mercado digital vasto e em constante evolução, a vigilância sobre a publicidade de bets exigirá um esforço coordenado e contínuo das diversas esferas governamentais e órgãos de controle. O Brasil dá, assim, um passo importante para harmonizar a exploração econômica do setor com a proteção da saúde financeira e mental de seus cidadãos.

Para ficar por dentro de todas as nuances da regulamentação do mercado de apostas e de outros temas relevantes que impactam a economia e a sociedade brasileira, continue acompanhando o Capital MT. Nosso compromisso é trazer informações aprofundadas e contextualizadas para você, leitor, estar sempre bem informado sobre os fatos que realmente importam.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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