A transição de governo em Minas Gerais, liderada pelo governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos), enfrenta os primeiros desafios antes mesmo da posse. No cerne da questão está a forte cobrança do Partido Liberal (PL) por um suposto baixo engajamento de Cleitinho na campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno, em um pleito que resultou na derrota do então candidato à reeleição no estado. Essa insatisfação do PL ameaça a formação de uma base de apoio governista na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), peça fundamental para a governabilidade do novo chefe do executivo mineiro.
Minas Gerais, com seu vasto eleitorado e peso político estratégico, foi um palco crucial na eleição presidencial. No primeiro turno, Bolsonaro, apoiado abertamente por Cleitinho, obteve uma vantagem de 588 mil votos sobre o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Contudo, a maré virou no segundo turno, e Lula reverteu o placar, vencendo por uma margem de 109 mil votos. Para o núcleo bolsonarista mineiro, esse resultado amargo gerou a busca por explicações e, consequentemente, por responsáveis, apontando o engajamento aquém do esperado de Cleitinho e do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) como fatores determinantes para a perda da vantagem inicial.
A expectativa do PL em relação a Cleitinho era alta. Identificado com a direita e um apoiador vocal de Bolsonaro durante a campanha, esperava-se que o governador eleito se tornasse um "cabo eleitoral" ativo na reta final. A adesão fervorosa era, inclusive, uma condição informal estabelecida pela direção do PL para uma futura aliança na Assembleia, mesmo com a sigla tendo lançado candidato próprio ao governo de Minas no primeiro turno. A derrota de Bolsonaro em um estado tão simbólico, contudo, jogou holofotes sobre a atuação de cada aliado.
O Xadrez Político em Minas e as Cobranças do PL
A retribuição política é uma moeda de troca essencial no jogo eleitoral. Para o PL, que elegeu a maior bancada na ALMG, o apoio de Cleitinho na campanha presidencial de Bolsonaro era visto como um termômetro de lealdade e um preâmbulo para a construção de uma base aliada no Legislativo estadual. Após o resultado desfavorável, o tom mudou. A cúpula do partido em Minas não descarta a aliança, mas a condiciona a um alinhamento do próximo governo com as pautas defendidas pela sigla, reforçando a importância de uma sintonia programática e de gestão.
Ausências e o Foco nas Redes Sociais
As críticas ao engajamento de Cleitinho ganharam corpo com episódios pontuais. Em uma das primeiras agendas conjuntas previstas com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) – figura-chave na campanha presidencial do pai –, Cleitinho se ausentou, alegando mal-estar. Os dois só se encontrariam na véspera do segundo turno, em um ato em Belo Horizonte. O governador eleito concentrou seu apoio ao ex-presidente nas redes sociais, utilizando a plataforma também para rebater provocações, como a do presidente Lula, que em visita a Juiz de Fora, sugeriu que Cleitinho permanecesse “quietinho”. Em vídeo, o governador eleito afirmou estar focado na transição, mas reafirmou o endosso a Bolsonaro.
Além disso, o silêncio do governador eleito sobre o resultado adverso da eleição presidencial e a subsequente saída do ex-presidente Jair Bolsonaro do país também foram notados. Em vez de comentar esses eventos, Cleitinho publicou uma gravação criticando os boicotes organizados por eleitores bolsonaristas a estabelecimentos de petistas. Nos comentários, a insatisfação de parte de seus apoiadores transpareceu, com muitos retomando as críticas sobre seu empenho durante a campanha, indicando que a percepção de falta de envolvimento era ampla e persistente.
O Papel de Nikolas Ferreira
O deputado Nikolas Ferreira, coordenador da campanha bolsonarista em Minas, também foi alvo de críticas. Ele, que deveria ser um dos principais articuladores, foi visto percorrendo outros estados na reta final com os “bloquinhos do 22”, nem sempre acompanhado do senador Flávio Bolsonaro, levantando questionamentos sobre a priorização dos esforços de campanha no estado mineiro. Essa distribuição de responsabilidades e a subsequente cobrança mútua ilustram a complexidade e a tensão pós-eleitoral dentro do próprio campo ideológico.
Defesas e o Caminho das Negociações Pós-Eleição
O vice-governador eleito, Luís Eduardo Falcão (Republicanos), saiu em defesa de Cleitinho, classificando as cobranças como “infundadas”. Para Falcão, o momento seria propício para o entorno de Jair Bolsonaro “identificar e reconhecer os erros da própria campanha em vez de buscar culpados”. Ele reforçou que Cleitinho declarou apoio a Bolsonaro em fevereiro e reiterou a posição diversas vezes, mesmo diante do cenário complexo onde o PL chegou a ter um candidato ao governo mineiro no primeiro turno. Falcão assegura que participaram ativamente e ajudaram a mobilizar eventos para os quais foram convidados no segundo turno.
Com a eleição encerrada, a aproximação entre o novo governo e o PL ainda é uma possibilidade, mas com ressalvas. O presidente do diretório estadual do PL, deputado federal Zé Victor, confirmou que o governador Cleitinho procurou a sigla para iniciar conversas. No entanto, ele pondera que qualquer composição dependerá da disposição do governo em se alinhar com os ideais do partido. “Isso não significa uma composição, e sim que temos a porta aberta para contribuir com o estado”, afirmou Zé Victor, reforçando a expectativa por um governo com pautas alinhadas e um método de gestão eficiente e coerente com os princípios do PL.
A necessidade de um alinhamento programático e ideológico se mostra, portanto, como o grande divisor de águas para a formação da base do governo Cleitinho. Essa mesma dinâmica balizará a postura do Partido dos Trabalhadores (PT), que possui a segunda maior bancada na ALMG. O partido também aguarda um indicativo de pautas para decidir se integrará automaticamente a oposição ou se encontrará pontos de convergência para o diálogo. O cenário da política mineira, à exemplo do contexto nacional, mostra que a governabilidade passa inevitavelmente pela complexa teia de negociações e alianças que se desenham nos bastidores do poder.
Os próximos meses serão cruciais para Cleitinho Azevedo. A habilidade de construir pontes e gerenciar as expectativas dos diferentes grupos políticos será determinante para garantir o apoio necessário na Assembleia Legislativa. O Capital MT continuará acompanhando de perto os desdobramentos dessas articulações, trazendo aos leitores a análise aprofundada e contextualizada sobre os rumos da política mineira e suas implicações para o estado. Fique por dentro de todas as notícias e análises em nosso portal.
Fonte: https://oglobo.globo.com