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A força jovem das ruas: como estudantes da UFF impulsionaram a mobilização pró-Lula e a virada eleitoral

De volta à luta: bandeira erguida por estudantes da UFF é de 2018 — Foto: Marina Calderon

A noite de 4 de outubro de 2022 ainda ecoava a tensão do primeiro turno das eleições presidenciais, que havia deixado um cenário de incerteza e polarização no Brasil. Foi nesse contexto que uma mensagem, enviada às 21h45 por João Paulo Pimenta Armando, então com 22 anos, estudante de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), acendeu uma chama que se espalharia por todo o país. Em um grupo de WhatsApp com outros dois colegas, ele propôs: “Temos que fazer um ato”. O sentimento de urgência era palpável: no Rio de Janeiro, o senador Flávio Bolsonaro (PL) havia superado o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 47,03% dos votos contra 45,16%, e a margem apertada em nível nacional pedia uma reação vigorosa. O que começou como a ideia de uma manifestação discreta na UFF, no campus do Ingá, em Niterói, logo se transformaria em um movimento que, da histórica cidade fluminense, impulsionou a mobilização de jovens em apoio ao petista no segundo turno.

Do Salão da Faculdade às Ruas: A Chama Antifascista se Espalha

A intenção inicial de João Paulo e seus colegas era modesta: realizar um ato para os estudantes de Direito no salão da faculdade e hastear a bandeira “Direito UFF Antifascista” – um símbolo que já carregava consigo um histórico de resistência. No entanto, o entusiasmo foi maior do que o planejado. “A ideia era fazer um ato para os estudantes de Direito no salão da faculdade e hastear a bandeira antifascista. No evento, as pessoas pediram para irmos para a rua e fomos, sem nada combinado”, recorda o estudante, que só teve a real dimensão da repercussão do feito ao chegar em casa e constatar a viralização dos vídeos da manifestação. Essa espontaneidade, alimentada pela frustração com o resultado do primeiro turno e pela esperança de uma virada, foi a faísca que transformou um evento interno em um protesto público de grande visibilidade, ressoando rapidamente pelas redes sociais.

A mobilização dos estudantes da UFF em Niterói não foi um evento isolado, mas o ponto de partida de uma série de 15 atos pró-Lula realizados na cidade durante os 21 dias que antecederam o segundo turno. Essa efervescência juvenil reflete a capacidade intrínseca das universidades brasileiras de atuarem como polos de pensamento crítico, de articulação política e de efervescência social, especialmente em momentos de definição nacional. Niterói, conhecida por seu perfil progressista e sua forte presença de instituições de ensino superior, ofereceu um terreno fértil para que essa articulação ganhasse força, reverberando para além dos limites do campus e influenciando a dinâmica política estadual, contribuindo para uma melhora da esquerda no estado no segundo turno.

Um Histórico de Resistência e a Voz Perpétua da Juventude

A bandeira “Direito UFF Antifascista”, peça central na mobilização, não surgiu por acaso nem de repente. Ela faz parte do acervo da faculdade desde 2018, criada após o primeiro turno das eleições daquele ano para manifestar a posição contrária dos estudantes à iminente eleição de Jair Bolsonaro à Presidência. Naquele período, foi inclusive retirada por fiscais do Tribunal Regional Eleitoral, sob alegação de propaganda política irregular, mas foi recolocada após uma liminar que garantia a liberdade de expressão universitária. João Boechat, ex-líder estudantil e idealizador da bandeira, lembra: “Queríamos tirar as ideias do papel e pendurar na fachada para mostrar nosso posicionamento com veemência”. Esse histórico demonstra uma linha contínua de ativismo e posicionamento político dentro da UFF, com a bandeira tornando-se um símbolo de defesa da democracia e de repúdio a ideologias autoritárias.

Não foi, ademais, a primeira vez que estudantes da UFF se contrapuseram à figura de Jair Bolsonaro. Em 2011, quando ainda era deputado federal, Bolsonaro foi expulso do campus durante uma palestra após proferir ofensas à memória de Fernando Santa Cruz, estudante da própria universidade e uma das vítimas da ditadura militar brasileira. Esses episódios anteriores são cruciais para entender a profundidade e a coerência do engajamento político da UFF, contextualizando a mobilização de 2022 não como um evento isolado, mas como parte de uma tradição institucional de defesa dos valores democráticos, dos direitos humanos e da memória histórica que permeia a universidade e seus estudantes.

Vozes Pessoais: A Relevância da Participação e a Transformação Política

Por trás dos atos e das bandeiras, há histórias pessoais que impulsionam a ação coletiva e revelam a força da convicção individual. Luisa Valentina Costa, de 19 anos, coidealizadora do protesto, revela a emoção e o alívio que sentiu na noite em que Lula foi anunciado presidente novamente. “Sonho com o Lula vindo na universidade e a gente tirando uma foto, para eu colocar na parede e lembrar sempre que fiz parte desse tetra”, confessa Valentina, expressando o orgulho de ter contribuído para o resultado. Sua trajetória é um exemplo da transformação política de muitos jovens: vinda da Bahia para estudar no Rio de Janeiro, ela era antipetista por influência familiar até a pandemia de Covid-19. A perda de sua avó para a doença, no entanto, a fez repensar suas convicções e passar a rejeitar o então governo Bolsonaro, evidenciando como eventos traumáticos e a gestão da crise sanitária impactaram profundamente a visão de mundo e a escolha política de uma parcela significativa do eleitorado jovem.

A mobilização estudantil, como a iniciada na UFF, desempenha um papel fundamental na vitalidade democrática de um país. Em um cenário de intensa polarização, a voz universitária, muitas vezes com capacidade de articulação e ressonância nas redes sociais, pode ser decisiva para o desfecho de campanhas eleitorais. Ao se manifestarem, os jovens não apenas expressam suas opiniões, mas também educam, informam e incentivam outros segmentos da sociedade a participar, contribuindo para a efervescência do debate público e para a consolidação de pautas sociais.

Desdobramentos e o Compromisso Contínuo com a Democracia

O clima na UFF hoje é de orgulho pela atuação de seus estudantes. Roberto Salles, reitor eleito da instituição, elogiou publicamente o papel dos jovens: “Foi um espetáculo ver os estudantes mostrando mais uma vez que são defensores da democracia plena”. Esse reconhecimento institucional reforça a importância da autonomia universitária e do engajamento cívico como pilares da vida acadêmica e social. A promessa dos estudantes é permanecer nas ruas e colaborar com o governo Lula nas batalhas que se avizinham, especialmente aquelas relacionadas à articulação e ao enfrentamento no Congresso Nacional, onde a base governista muitas vezes encontra resistência. Essa postura indica que a mobilização de 2022 não foi um fim em si mesma, mas o início de uma vigilância e participação contínuas na arena política e social do país.

A permanência nas ruas e o monitoramento das ações governamentais e legislativas são cruciais para a consolidação dos ideais democráticos e sociais defendidos pelos estudantes. O engajamento pós-eleitoral transforma a energia da campanha em ação cívica contínua, vital para a fiscalização do poder, a cobrança de promessas e a promoção de pautas progressistas. A história da mobilização dos estudantes da UFF em 2022 é um lembrete potente de que a participação ativa da juventude e da academia é um pilar insubstituível para a manutenção e o aprimoramento constante da democracia brasileira.

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Fonte: https://oglobo.globo.com

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