Em um movimento significativo para a cartografia global e a representação equitativa do nosso planeta, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou que, a partir desta sexta-feira, 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, disponibilizará em seu portal os novos mapas-múndi lançados para o período de 2024 a 2026. A versão mais recente desses mapas foi aprovada com vasta maioria na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) na última sexta-feira, 4 de setembro, marcando um passo importante na busca por uma representação visual mais fidedigna da Terra e suas proporções.
A decisão da ONU, que contou com 164 países favoráveis à mudança e à utilização da projeção Equal Earth, reflete um consenso crescente sobre a necessidade de se afastar de modelos cartográficos que, por séculos, perpetuaram distorções significativas. O único voto contrário veio dos Estados Unidos, com seis abstenções registradas, evidenciando uma divergência notável em um cenário de ampla aceitação internacional. Essa deliberação, embora não tenha força de lei, carrega um peso político e simbólico considerável, influenciando a forma como nações e indivíduos percebem o mundo.
A Herança de Mercator e a Busca por Proporções Reais
A reivindicação por mapas-múndi que espelhem com maior precisão a realidade geográfica é um debate antigo, mas que ganha força e destaque na atual conjuntura global. Desde o século XVI, a cartografia mundial tem sido amplamente dominada pela projeção de Mercator, criada pelo cartógrafo Gerardus Mercator em 1569. Desenvolvida para facilitar a navegação marítima, essa projeção cilíndrica é excelente para manter os ângulos e as formas das terras costeiras, mas ao custo de distorcer drasticamente as áreas e proporções dos continentes, especialmente aqueles mais distantes da linha do Equador.
Nesse modelo, regiões como a América do Norte e a Groenlândia aparecem exageradamente ampliadas, por vezes parecendo maiores do que o continente africano, quando, na realidade, são consideravelmente menores. A Groenlândia, por exemplo, é retratada com uma área similar à da África, quando, em sua dimensão real, o continente africano é aproximadamente quatorze vezes maior. Da mesma forma, a América do Sul e a própria África são 'encolhidas' visualmente nos mapas de Mercator, uma distorção que, intencional ou não, acabou por reforçar uma percepção eurocêntrica e colonialista do mundo, influenciando o imaginário coletivo por gerações.
A Projeção Equal Earth: Um Olhar Mais Justo
A adoção da projeção Equal Earth representa um marco nesse esforço de retificação. Criada em 2018 por cientistas do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) e da Universidade de Maryland, a Equal Earth é uma projeção de área equivalente, o que significa que ela preserva as proporções relativas de todas as massas de terra. Embora nenhuma projeção 2D de uma esfera perfeita possa ser totalmente livre de distorções em todos os aspectos (forma, distância, direção e área), a Equal Earth prioriza a acurácia das áreas, apresentando os continentes em tamanhos que refletem suas dimensões reais, ao mesmo tempo em que minimiza a distorção da forma.
A fundamentação da proposta aprovada na ONU é resultado de um esforço contínuo da União Africana (UA), que há muito tempo tem defendido uma representação cartográfica mais fidedigna. Para o continente africano, que desde o século XVI tem sido consistentemente diminuído nos mapas-múndi adotados globalmente, assim como a América do Sul, essa mudança é mais do que uma questão técnica; é um ato de reconhecimento e de justiça histórica. Ela desafia séculos de uma perspectiva que subestimou a vastidão e a importância dessas regiões no panorama mundial.
O Papel do IBGE e a Relevância para o Brasil
A adesão do IBGE a essa nova projeção ressalta o compromisso do Brasil com as inovações cartográficas e com a disseminação de informações geográficas precisas e atualizadas. Conforme destaca Maria do Carmo Bueno, Diretora de Geociências do IBGE, “a adoção da projeção Equal Earth pela ONU reforça a posição da Diretoria de Geociências do IBGE de acompanhar de forma contínua as inovações cartográficas e de adotar representações do mundo que dialoguem com demandas sociais por mais equilíbrio e justiça na forma de mapear o nosso planeta”. Para o cidadão brasileiro, a mudança significa ter acesso a mapas que refletem mais fielmente a posição e o tamanho do próprio país e de seus vizinhos, reeducando a percepção de proporções e distâncias no globo.
Essa atualização é crucial não apenas para a educação formal, impactando livros didáticos e o ensino de geografia nas escolas, mas também para a compreensão pública. Ao corrigir as distorções visuais, os novos mapas podem alterar a maneira como os brasileiros, e o mundo, percebem o peso demográfico, econômico e cultural de diferentes regiões do globo. Em um mundo cada vez mais interconectado, a precisão na representação visual é fundamental para promover uma compreensão mais equitativa e informada das relações globais e dos desafios que enfrentamos coletivamente.
A disponibilidade desses mapas no site da loja do IBGE a partir de amanhã abre um novo capítulo na forma como o Brasil e o mundo interagem com a cartografia, promovendo uma visão mais real e menos enviesada do nosso planeta. É um convite à reflexão sobre como as representações visuais moldam nossa compreensão do mundo e um passo à frente na busca por uma maior justiça e equilíbrio na forma como nos vemos e nos relacionamos no cenário global.
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