O advogado Ciro Rocha Soares, uma figura hábil na capital federal, emergiu no centro das atenções após ter seu nome associado a tentativas de mediação de encontros entre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e hoje detido, e altas autoridades do Judiciário, incluindo o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Conhecido em Brasília por sua notável capacidade de transitar por diferentes esferas de poder, Ciro possui uma rede de contatos que se estende do esporte aos tribunais, do setor financeiro à política, consolidada ao longo de décadas.
Para seus amigos mais próximos, Ciro Rocha Soares é mais do que um simples advogado; ele é descrito como alguém com a facilidade de “vender até vento”, uma metáfora para sua impressionante capacidade de abrir portas. Essa reputação não é à toa: ele é capaz de agendar audiências com praticamente qualquer autoridade do Judiciário, frequentemente durante as intensas “pontes aéreas” que realiza, ligando metrópoles como Salvador, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. Sua mobilidade e acesso destacam a importância de sua figura nos bastidores das decisões nacionais.
A relação entre Ciro e Vorcaro, um dos focos da crise que envolve o Supremo Tribunal Federal, teve início há cerca de seis anos, de maneira inusitada: em um camarote do Mineirão, durante uma partida entre Atlético-MG e Athletico-PR. Naquela época, Vorcaro era um dos patrocinadores do time mineiro. A apresentação foi feita por Saulo Wanderley, empresário do setor da construção civil, selando o começo de uma amizade que rapidamente evoluiria para uma parceria profissional. Ciro passou a atuar para Vorcaro, tornando-se um de seus principais interlocutores em Brasília, um papel crucial dada a complexidade dos negócios e desafios regulatórios do Banco Master.
Inicialmente, Ciro foi um dos primeiros advogados de defesa de Vorcaro, ao lado de Roberto Podval, quando a crise do Banco Master começou a se aprofundar. Contudo, ele deixou o caso quando o banqueiro decidiu explorar a possibilidade de uma delação premiada – um método que, segundo relatos, contraria a forma de Ciro atuar na advocacia. Apesar do afastamento profissional da defesa direta, a amizade permaneceu inabalável. Ciro faz questão de afirmar aos mais próximos que não abandonaria Vorcaro justamente no momento mais difícil, sublinhando a lealdade pessoal em meio às turbulências legais e financeiras que culminaram na prisão do banqueiro e na reverberação de suas conversas.
A Teia de Conexões: Da Bahia ao Coração do Poder
A relação com Daniel Vorcaro é apenas um dos muitos capítulos na extensa rede de contatos que Ciro Rocha Soares construiu ao longo de décadas. Suas primeiras conexões se estabeleceram na Bahia, onde ele, com raízes mineiras e baianas, começou a se aproximar do Tribunal de Justiça local. Seu padrinho nesse ambiente foi o então desembargador Carlos Alberto Dultra Cintra, que presidiu a Corte e, falecido no ano passado, havia estudado com o pai de Ciro, o também advogado Angelo Soares. Essa amizade entre gerações abriu as portas para o jovem Ciro no Judiciário baiano, marcando o início de sua trajetória no complexo universo jurídico e político.
Formado em Direito, Ciro Rocha Soares circulou por diversas sociedades de advocacia, ganhando destaque e espaço especialmente na defesa de prefeitos e políticos. Entre seus clientes e aliados, figura o senador Otto Alencar (PSD-BA), de quem se tornou amigo pessoal e vizinho por pelo menos 15 anos. Foi por meio dessa rede política que ele começou a expandir sua atuação para Brasília, inicialmente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Justiça Eleitoral tornou-se uma espécie de porta de entrada para uma circulação que, com o tempo, alcançaria políticos, magistrados, advogados e empresários de todo o país, solidificando sua posição como um facilitador chave.
No ano passado, a visibilidade de sua rede foi publicamente demonstrada em uma cerimônia na Assembleia Legislativa da Bahia, quando Ciro compareceu à entrega da Medalha de Cidadão Baiano ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, uma honraria concedida pelo deputado estadual Niltinho (PSD-BA). O evento reuniu, além de Otto Alencar, nomes de peso como o ex-líder do governo no Senado Jaques Wagner, evidenciando a capacidade de Ciro em reunir figuras proeminentes de diferentes esferas. É importante notar que Wagner também aparece em desdobramentos políticos relacionados ao Banco Master, embora em outro contexto, ligado a Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, demonstrando a intrincada malha de relações em torno do caso.
Nexos Empresariais e os Desdobramentos na Polícia Federal
O círculo de Ciro Rocha Soares não se restringe à política e ao Judiciário, estendendo-se profundamente ao ambiente empresarial. Entre os empresários de sua convivência, destaca-se Marcelo Pessoa, um executivo do mercado financeiro e sócio-sênior da renomada Galapagos Capital. O nome de Pessoa também surgiu em mensagens de celular de Vorcaro anexadas a relatórios da Polícia Federal, indicando a proximidade e o entrelaçamento de seus negócios e relações pessoais. Segundo as mensagens, Ciro teria tentado incluir Pessoa em uma viagem a Londres, um plano que, no entanto, teria sido barrado pelo próprio Vorcaro, revelando as dinâmicas e hierarquias dentro desse seleto grupo.
Marcelo Pessoa é o proprietário da luxuosa Ilha Parapituba, um recanto paradisíaco administrado pela Prime You, uma empresa especializada em compartilhamento de bens de alto padrão. A ilha faz parte do circuito social de Ciro Rocha Soares, que é um frequentador assíduo do local. Em 2023, Pessoa negociou a venda da ilha, mantendo duas cotas para si e vendendo outras duas. Uma dessas cotas foi adquirida pelo médico Gabriel Almeida, que também se viu sob o radar da Polícia Federal.
O envolvimento de Gabriel Almeida com a Ilha Parapituba ganhou contornos mais sérios ao se relacionar a uma investigação da Polícia Federal sobre a comercialização de substâncias clandestinas. De acordo com as apurações da PF, há indícios de que a própria ilha teria sido utilizada para apresentações e divulgação dessas substâncias, entre elas a tirzepatida manipulada, princípio ativo do medicamento Mounjaro. Essa ramificação da investigação adiciona uma camada de complexidade e seriedade às conexões empresariais de Ciro, mostrando como as redes de influência podem se cruzar com inquéritos de naturezas diversas, afetando um leque amplo de profissionais e setores.
A trajetória de Ciro Rocha Soares, entre o Mineirão e os aeroportos de Brasília, revela a intrincada teia de poder, amizade e negócios que opera nos bastidores da vida pública brasileira. Sua habilidade em navegar por essas esferas, conectando diferentes grupos e influenciando decisões, é um espelho da complexidade das relações que moldam o cenário político, jurídico e financeiro do país. Compreender como essas redes se formam e atuam é fundamental para desvendar os pormenores de crises como a do Banco Master e seus desdobramentos. Continue acompanhando o Capital MT para análises aprofundadas e informações contextualizadas sobre os temas mais relevantes que impactam a sociedade, com o compromisso de trazer a você um jornalismo de qualidade e credibilidade.
Fonte: https://www.metropoles.com