Aprovada a Venda de Spray de Pimenta: Medida Paliativa ou Solução Real para a Segurança Feminina, Alerta Promotora

© Dan Race/ Adobe Stock

O Senado Federal deu um passo significativo em direção a uma demanda antiga de parte da população feminina ao aprovar o projeto de lei que autoriza a comercialização, a compra e a posse de spray de pimenta para mulheres acima de 16 anos, em todo o país, como medida de defesa pessoal. A proposta, que agora aguarda a sanção do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, acende um importante debate sobre a eficácia e os limites de tais iniciativas. Enquanto alguns veem um avanço na autonomia da mulher para se proteger, especialistas alertam para a possibilidade de uma falsa sensação de segurança e os riscos práticos envolvidos.

A promotora de Justiça do Ministério Público de São Paulo (MPSP) e presidente do Instituto Pró-Vítima, Celeste Leite dos Santos, é uma das vozes críticas. Para ela, a aprovação do projeto não representa uma política de segurança pública real ou segura, mas sim uma “medida paliativa” que pode gerar mais problemas do que soluções efetivas. A promotora classifica a iniciativa como um exemplo de “populismo penal”, que, em vez de enfrentar as causas da violência, oferece uma solução simplista e, muitas vezes, ineficaz.

Detalhes da Lei e os Requisitos para a Aquisição

De acordo com o texto aprovado, mulheres a partir dos 18 anos poderão adquirir o spray de pimenta livremente, mediante a apresentação de documento oficial com foto, comprovante de residência e um certificado de que não possuem antecedentes criminais. Para as jovens entre 16 e 18 anos, a compra exigirá autorização dos pais ou responsáveis legais. O volume máximo permitido para o frasco é de 50 ml, e as lojas credenciadas terão a obrigação de registrar os dados da compra e emitir nota fiscal, garantindo um controle sobre o produto.

A utilização do spray é prevista para repelir agressão “injusta, atual ou iminente”, devendo ser empregada de forma “moderada”. A legislação também estabelece uma responsabilidade adicional para a usuária: em caso de roubo ou furto do spray, a proprietária deverá registrar um boletim de ocorrência em até 72 horas. Essas especificações visam regular o uso e evitar abusos, mas, segundo a promotora Celeste Leite dos Santos, não são suficientes para mitigar os perigos inerentes ao equipamento.

O Perigo por Trás da “Falsa Sensação de Segurança”

A principal preocupação da promotora reside na ideia de que o spray de pimenta cria uma ilusão de autodefesa fácil e instantânea. “O uso do spray cria a ilusão de que a mulher pode se defender facilmente, mas seu manuseio não é simples e exige treinamento específico”, pontua Celeste. Ela detalha uma série de riscos práticos que podem transformar a ferramenta de defesa em uma vulnerabilidade ainda maior para a vítima.

Entre os riscos citados estão o disparo acidental contra o vento, que pode fazer o produto retornar para a própria usuária, incapacitando-a. A distância é outro fator crucial: se utilizado a menos de um metro, o agressor pode facilmente tomar o spray da vítima, transformando a arma de defesa em uma ferramenta de ataque contra a própria mulher. Além disso, o tipo de spray – em jato ou em névoa – modifica a forma de uso, e o ambiente é um fator determinante; em locais fechados, o uso é desaconselhável, pois pode atingir a própria usuária e terceiros inocentes, comprometendo a segurança de todos.

Riscos de Inversão de Papéis e a Ausência de Treinamento

Um dos pontos mais críticos levantados pela promotora é o risco de inversão de papéis, onde a vítima pode ser punida legalmente caso utilize o spray de forma desproporcional ou atinja terceiros. “Nesses casos ela pode estar sujeita a pena administrativa com o pagamento de multas de um a dez salários mínimos. Pode ainda responder na área civil sendo responsabilizada pelos danos causados, ou na esfera criminal, por lesão corporal ou resposta desproporcional”, alerta Celeste. A legítima defesa exige proporcionalidade e contexto, conceitos que podem ser complexos de aplicar em momentos de pânico e agressão.

A ausência de um treinamento técnico específico e obrigatório para o manuseio do spray é uma falha grave, na visão da presidente do Instituto Pró-Vítima. Para ela, o governo liberar a venda sem definir quem ministrará esse treinamento ou como ele será implementado é uma lacuna que compromete a segurança das usuárias. A mera exigência de documentos para a compra não garante que a mulher terá o conhecimento e a habilidade necessários para usar o produto de forma eficaz e segura, sem causar danos a si mesma ou a outrem.

Para Além do Spray: A Defesa Pessoal e a Falha dos Poderes

A promotora Celeste Leite dos Santos enfatiza que a legítima defesa vai muito além do uso de um dispositivo. Ela aponta para outras formas de defesa pessoal, muitas delas preventivas, que deveriam ser mais incentivadas. “Também são forma de defesa manter uma postura segura, observar a movimentação da rua antes de entrar em casa ou no carro. Adotar uma postura corporal firme no metrô ou transporte coletivo, com a cabeça erguida, olhar direto e base corporal pronta para fuga ou reação, por exemplo, demonstra atenção e inibe a aproximação de agressores de forma indireta. Mas há também técnicas de defesa pessoal que permitem se desvencilhar do agressor”, afirma.

Para a especialista, a aprovação de medidas como a venda do spray de pimenta evidencia uma falha sistêmica dos Três Poderes em atender às demandas das mulheres por segurança. “O Legislativo falha porque não avança em garantir a igualdade; o Judiciário porque muitas vezes não está preparado para lidar com as vítimas, gerando revitimização; e o Executivo por não implementar políticas públicas estruturadas de prevenção”, conclui. A segurança feminina, portanto, exige uma abordagem multifacetada que inclua educação, igualdade de gênero, combate à impunidade e políticas públicas robustas, e não apenas a disponibilização de ferramentas que, sem o devido preparo e contexto, podem trazer mais riscos do que proteção.

O debate sobre a venda do spray de pimenta ressalta a complexidade da segurança pública e a urgência de soluções que sejam verdadeiramente eficazes e abrangentes para as mulheres brasileiras. Enquanto a lei aguarda sanção presidencial, a discussão sobre a autodefesa e a responsabilidade do Estado em proteger seus cidadãos continua e é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e segura. Para acompanhar os desdobramentos desta e de outras pautas relevantes que impactam o cotidiano da população, com informação de qualidade e análise aprofundada, continue ligado no Capital MT, seu portal de notícias focado em informação relevante e contextualizada.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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