Tangará da Serra, no interior de Mato Grosso, foi palco de um drama familiar que escancara desafios urbanos e a necessidade de responsabilidade pública. Imagens chocantes mostram a devastação na residência da manicure Zayama Kelly de Oliveira, de 38 anos, após um temporal em junho, que, segundo ela, teve seus efeitos agravados por uma obra realizada pela prefeitura em um terreno vizinho. A casa, antes um lar para Zayama, suas duas filhas e a neta, transformou-se em um cenário de lama e perda, levando a família a buscar amparo judicial.
A situação de Zayama não é um caso isolado, mas um reflexo da vulnerabilidade de muitas cidades brasileiras diante de eventos climáticos extremos e, por vezes, da falta de planejamento ou fiscalização em intervenções urbanas. A Defensoria Pública do estado já acionou a Justiça, pleiteando que o município de Tangará da Serra forneça moradia provisória e auxílio-moradia, enquanto a família tenta reconstruir sua vida em meio aos escombros.
A Força da Água e a Acusação de Negligência
O alagamento que atingiu a casa de Zayama, localizada em um bairro de Tangará da Serra onde ela mora há 30 anos e possui raízes familiares e profissionais, é atribuído pela manicure a uma intervenção municipal específica. Segundo seu relato, uma obra realizada pela prefeitura em um terreno adjacente alterou significativamente a contenção natural da água. A remoção de um meio-fio e de uma proteção que antes barravam o fluxo, combinada com os escombros de um acidente anterior que já havia trincado o muro, criou um cenário propício para a tragédia.
“Foi retirado o meio-fio e a proteção que barrava a água de vir. Com a retirada disso e dos escombros de um acidente que já tinham trincado o meu muro, a força da água acabou derrubando tudo. Foi uma tragédia”, desabafou Zayama. Ela ressalta que, nos 15 anos em que reside no imóvel, nunca havia enfrentado uma situação de alagamento, o que reforça sua convicção de que a obra foi o fator determinante para a destruição.
O Impacto Humano e a Luta por Recomeço
A casa, que abrigava Zayama, suas filhas de 18 e 14 anos, e a neta de apenas 1 ano, ficou completamente inabitável. As imagens divulgadas revelam cômodos tomados por uma espessa camada de lama, móveis revirados e destruídos, além de danos estruturais que comprometem a segurança do imóvel. Camas, geladeira, eletrodomésticos e utensílios domésticos, que representam o patrimônio de uma vida de trabalho, foram perdidos, deixando a família em uma situação de desabrigo e desamparo material.
Para Zayama, a perda vai além dos bens materiais. É a desestruturação de um lar, de um ponto de apoio familiar e profissional. “Minha vida está aqui. Minhas filhas estudaram na creche aqui do lado, minha neta também estuda aqui. Eu optei por comprar minha casa neste bairro e quero continuar aqui”, afirmou, evidenciando o profundo vínculo com a comunidade e a clientela que atende como manicure na região. A perspectiva de ter que se afastar e recomeçar do zero é dolorosa e complexa.
A Busca por Justiça e a Resposta Pública
Diante da calamidade, a Defensoria Pública de Mato Grosso assumiu a defesa da família, formalizando o pedido de auxílio-moradia e moradia provisória. O caso de Zayama ilustra a importância do papel da Defensoria em garantir o acesso à justiça e os direitos de cidadãos que, muitas vezes, não teriam condições de arcar com os custos de um processo judicial. A ação visa responsabilizar o poder público por uma eventual falha na execução ou no planejamento da obra, que teria contribuído diretamente para os danos.
A expectativa da família é clara: “Eu espero que minha casa seja restaurada, porque do jeito que está não tem como voltar com a minha família. Espero o amparo da prefeitura, já que a máquina usada aqui foi deles. Não quero que me banque o resto da vida, quero apenas um auxílio provisório até conseguir arrumar minha casa”, declarou Zayama, buscando não apenas compensação, mas uma solução que permita a ela e sua família retomar a normalidade. Até a última atualização desta reportagem, a Prefeitura de Tangará da Serra não se manifestou sobre o ocorrido ou sobre as ações que pretende tomar, conforme contato do g1.
Solidariedade e o Contexto de Desafios Urbanos
Enquanto aguardam uma resposta do poder público, a família de Zayama tem contado com a solidariedade da comunidade. Após um período em que chegaram a ocupar temporariamente um imóvel comercial, sendo posteriormente despejados, eles têm recebido doações de alimentos, móveis e apoio voluntário para os primeiros reparos no imóvel. Essa mobilização social demonstra a capacidade de resposta da população em momentos de crise, mas também sublinha a lacuna deixada pela ausência de uma ação estatal imediata e eficaz.
O incidente em Tangará da Serra ressoa com uma realidade comum em diversas cidades brasileiras: o crescimento urbano, muitas vezes desordenado, a insuficiência de infraestrutura de drenagem e a crescente intensidade dos fenômenos climáticos. A combinação desses fatores, somada a possíveis falhas em projetos ou execuções de obras públicas, eleva o risco de desastres e expõe a fragilidade de milhares de famílias, especialmente as que vivem em áreas mais vulneráveis ou dependem diretamente da proteção de suas casas para manter sua estabilidade social e econômica.
O caso de Zayama Kelly de Oliveira serve como um lembrete urgente sobre a importância do planejamento urbano rigoroso, da fiscalização de obras públicas e da necessidade de mecanismos rápidos e eficazes de amparo às vítimas de desastres. O desafio para Tangará da Serra e para outras cidades é garantir que o progresso não venha acompanhado de negligência, e que o direito à moradia digna e à segurança seja uma prioridade inegociável para todos os seus cidadãos.
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Fonte: https://g1.globo.com