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Atleta olímpica desabafa ter medo de perder a guarda da filha

Perto da estreia nas Olimpíadas de Paris, a atleta paranaense Flávia Maria de Lima, que vai disputar os 800m rasos no atletismo, encara uma disputa judicial com o ex-marido em torno da guarda da filha de 6 anos de idade.

 Flávia explicou que o pai da criança protocola todas as viagens da velocista em uma ação judicial alegando abandono parental.

— Por incrível que pareça, a minha profissão é o ponto no que está sendo julgado. Sim, competições que participei foram protocoladas alegando que eu abandonei a minha filha. No começo até fiquei aterrorizada, amedrontada, fiquei com medo de competir, de viajar, até pensei em desistir. Mas com um acompanhamento psicológico e conversando com minha mãe, que esteve me apoiando todos os dias, eu resolvi lutar e buscar os meus sonhos, vir atrás de tudo aquilo que eu sempre sonhei — disse Flávia em vídeo enviado à equipe do Globo Esporte Paraná em Paris.

O ge identificou um processo envolvendo maus-tratos que começou a tramitar em 26 de junho de 2024, mas o assunto está em segredo de justiça porque envolve uma criança. Ainda não houve decisão judicial.

A reportagem entrou em contato com o ex-marido de Flávia Maria e com a defesa dele no caso, mas eles não quiseram se pronunciar.

Dos Jogos Escolares aos Jogos Olímpicos

Nascida em Campo do Tenente, no interior do Paraná, Flávia Maria começou a correr aos 17 anos e competiu pela primeira vez em jogos escolares. Ela mudou-se para Campo Mourão em julho de 2010 para treinar com o técnico Luiz Alberto de Oliveira. Em Campo Mourão, ela conheceu o ex-marido, que também é da área do esporte.

Campeã sul-americana e bronze em Jogos Pan-Americanos, Flávia já participou do Mundial de Atletismo e esteve nos Jogos Olímpicos do Rio em 2016. Além disso, ela é pentacampeã do Troféu Brasil de Atletismo.

— A Olimpíada é o sonho de todo atleta, o ápice na carreira de todo atleta de alto rendimento. Estar realizando esse sonho pela segunda vez não tem preço. É um momento de gratidão, porque é muito difícil chegar lá, são poucas vagas. Foi muita luta, muita disciplina e muita dedicação — disse Flávia em entrevista ao ge.

Para estar em Paris, ela conseguiu as marcas nos 800m de 2min1s16 no Troféu Brasil, em São Paulo, 2min1s89 no Grande Prêmio de Watford, na Inglaterra, e 2 min0s92 no Meeting de Troyes, na França.

As viagens foram fundamentais para a classificação e para a garantia das bolsas e patrocínios, mas se tornaram um pesadelo.

Hoje, a concentração para competir nos 800 metros pelas Olimpíadas de 2024 divide espaço com o medo de estar alimentando mais transtornos judiciais por estar em Paris.

A briga na Justiça

Em 2018, a gravidez não planejada fez com que Flávia ficasse quase um ano sem clube e patrocínios, mas por ter disputado as Olimpíadas do Rio ela conseguiu manter o sonho vivo com a bolsa de atleta olímpica. Quatro meses após dar à luz, Flávia voltou a treinar, conciliando a vida de atleta de alta performance com a criação de sua filha.

Uma vez que ela não se classificou para as Olimpíadas de Tóquio, em 2021, o auxílio para Flávia no programa de bolsa para atletas diminuiu, e ela passou a fazer crochê como renda adicional.

Flávia pediu o divórcio do ex-marido há um ano e ficou fora de competições até se mudar de Campo Mourão para Campo do Tenente, em dezembro do ano passado. Em Campo do Tenente, Flávia estaria mais próxima da sua rede de apoio.

Os bens a partilhar e a guarda da filha viraram uma disputa judicial. O ex-marido de Flávia quer que a guarda permaneça compartilhada, mas que o lar de referência seja a casa do pai, que fica a cerca de 460 quilômetros, o equivalente a seis horas e meia de viagem de carro, de onde Flávia reside com os pais, em Campo do Tenente. Hoje, quando Flávia viaja para competir, a criança fica com a família materna.

E agora?

Por mais que os recursos do processo desgastem Flávia Maria psicologicamente, estar nas Olimpíadas, para ela, além do sonho de medalha, é um ato de resistência.

— O que eu quero nessa Olimpíada é mostrar para todas as mulheres que, mesmo em um mundo em que o machismo está predominando, elas não precisam ficar reféns. Estou representando toda uma classe de mulheres que lutam pelos seus direitos, para mostrar que nós podemos, que somos resistência e que existe liberdade fora de um relacionamento abusivo — disse Flávia antes das Olimpíadas.

— Mulheres, sejam fortes. Não desistam de vocês. Continuem a luta de vocês, continuem a carreira de vocês sem deixar de lado os cuidados que vocês tem com os filhos de vocês. E não desistam. Nunca, nunca, nunca, nunca desistam, por amor por vocês mesmas. Sejam resilientes e sejam fiéis a vocês mesmas. Não caiam. Tudo isso vai passar, vocês vão encontrar a verdadeira felicidade e vão ter a justiça, uma hora ou outra, ao lado de vocês — reforçou Flávia Maria nesta semana.

Agenda olímpica

Flávia Maria de Lima vai disputar a prova classificatória dos 800m rasos na sexta-feira, às 14h45. A repescagem, se necessário para a atleta, será no sábado, às 6h10. A semifinal está marcada para domingo, às 15h35. Já a final será na segunda-feira, às 16h45. Os horários são de Brasília.

 

Com informações Globo Esporte

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