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Eleições: Abstenção varia em até dez pontos entre bairros de Rio e São Paulo, impactando disputa

Comparecimento às urnas é registrado pelo TSE — Foto: Divulgação/TSE

A abstenção eleitoral, um fenômeno persistente na democracia brasileira, revelou padrões complexos e socialmente relevantes nas últimas eleições, especialmente nas duas maiores capitais do país. Rio de Janeiro e São Paulo apresentaram uma variação significativa na taxa de eleitores ausentes, com diferenças que chegaram a dez pontos percentuais entre bairros, influenciando diretamente a dinâmica da disputa política e evidenciando contrastes socioeconômicos profundos.

No Rio de Janeiro, a cidade com a maior taxa de abstenção entre as capitais brasileiras, impressionantes 1,28 milhão de eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno, o que corresponde a 26,16% do eleitorado apto. Contudo, esse número médio esconde uma realidade multifacetada: a proporção de faltosos em bairros de maior poder aquisitivo superou, em muitos casos, a observada em regiões periféricas. Um levantamento minucioso das zonas eleitorais da capital fluminense expõe essa disparidade, revelando como a geografia social da cidade se reflete no engajamento cívico.

Rio de Janeiro: O Cenário das Disparidades

A 5ª Zona Eleitoral, que abrange o icônico bairro de Copacabana, na Zona Sul, registrou a maior proporção de ausências na capital carioca, com 31,9% de seus 116.655 eleitores aptos a votar simplesmente não comparecendo. Essa taxa, próxima a um terço do eleitorado da região, contrasta nitidamente com a da 120ª Zona Eleitoral, localizada em Campo Grande, na Zona Oeste, onde a abstenção foi de 22,2% entre os 81.975 eleitores registrados. A diferença de quase dez pontos percentuais entre uma área nobre e uma região mais popular da cidade não é um mero detalhe estatístico; ela reflete dinâmicas sociais distintas e, possivelmente, diferentes percepções sobre a importância do voto e a conexão com o processo político.

Os resultados eleitorais nesses locais ilustram bem o impacto dessa variação. Em Copacabana, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) obteve uma vitória expressiva, com 53,06% dos votos válidos, contra 39,14% de Flávio Bolsonaro (PL). Já em Campo Grande, a preferência se inverteu, com Flávio Bolsonaro à frente, angariando 59,91% dos votos, ante 32,41% do petista. Essa polarização territorial é um indicativo de como as diferentes realidades socioeconômicas e culturais dos bairros podem moldar o voto e, consequentemente, o destino das eleições. Curiosamente, a 9ª Zona Eleitoral, que compreende a Barra da Tijuca, registrou o maior número absoluto de ausentes, com 38,5 mil eleitores, mesmo com uma taxa de abstenção (23,8%) abaixo da média da cidade. Isso demonstra que o volume de eleitores em zonas maiores pode distorcer a percepção da proporção de faltosos, merecendo uma análise mais aprofundada.

São Paulo: Variações Expressivas em Megalópole

Em São Paulo, o maior colégio eleitoral do Brasil, a variação na abstenção foi ligeiramente menor, mas igualmente significativa, chegando a quase sete pontos percentuais. A 1ª Zona Eleitoral, que engloba a região da Bela Vista, área de concentração de renda e atividade cultural, registrou a maior taxa de abstenção da capital paulista, com 28% de eleitores ausentes entre seus 145.532 inscritos. Em contrapartida, a 397ª Zona Eleitoral, localizada no Jardim Helena, uma região periférica no extremo leste da cidade, apresentou uma taxa de 21,6% de faltosos, em um eleitorado de 182.413. Essa diferença de 6,4 pontos percentuais reitera um padrão observado no Rio de Janeiro: bairros mais abastados tendem a ter maior taxa de ausência, um dado que desafia estereótipos sobre o engajamento político.

O resultado das urnas na capital paulista também ecoou essa distinção. Na Bela Vista, Lula assegurou 60,58% dos votos, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 30,65%. No Jardim Helena, a margem pró-Lula foi menor, com 49,67% para o petista e 40,78% para Flávio Bolsonaro. O maior contingente de ausentes em São Paulo foi identificado na 372ª Zona Eleitoral, em Piraporinha, no extremo sul da cidade. Lá, 56,6 mil dos 238,5 mil eleitores aptos não compareceram, resultando em uma taxa de 23,7%, próxima à média paulistana. Lula também saiu vitorioso em Piraporinha, com 57,57% dos votos, contra 32,61% para Flávio. Esses números demonstram a correlação entre a realidade social de cada bairro e o comportamento eleitoral, seja na escolha dos candidatos ou na decisão de comparecer às urnas.

O Impacto da Abstenção na Estratégia das Campanhas

A expressiva massa de eleitores ausentes no primeiro turno tornou-se o principal alvo das campanhas para o segundo turno. Diante de um resultado tão apertado, a crença de que atrair parte desse eleitorado poderia ser decisiva impulsionou os esforços dos presidenciáveis. Pesquisas de intenção de voto tentaram capturar o humor desse segmento. Um levantamento da Quaest, por exemplo, revelou que 43% dos eleitores que se abstiveram, votaram em branco ou nulo no primeiro turno declararam que votariam em Lula no segundo, contra 38% para Flávio Bolsonaro. Essa inclinação sugeria uma possível vantagem para a campanha petista ao mobilizar os ‘faltosos’, mas a complexidade da abstenção vai além de uma simples preferência partidária, envolvendo fatores como a satisfação com a política, a dificuldade de acesso aos locais de votação e até mesmo problemas no registro eleitoral.

A Complexidade dos Dados e a Realidade da Abstenção

Apesar da importância estratégica dos eleitores ausentes, é fundamental analisar os dados de abstenção com cautela, como alerta o cientista político Jairo Nicolau, especialista em análise de dados eleitorais. Ele destaca que o cadastro de eleitores no Brasil apresenta uma série de problemas que podem distorcer a realidade. “Há eleitores que morreram e continuam inscritos, outros que mudaram de cidade e não transferiram o título, pessoas que votam num município vizinho àquele onde moram”, explicou Nicolau em artigo. Essa ressalva é crucial, pois parte dos 'faltosos' pode, na verdade, não existir ou não estar em condições de votar no local registrado, inflando artificialmente as taxas de abstenção.

Nicolau exemplifica essa questão com o caso de Davinópolis, em Goiás, onde o número de eleitores registrados (4.145) supera em mais do dobro o total de moradores (1.902), segundo dados do Censo de 2022. Nesse cenário, uma parcela considerável dos eleitores 'ausentes' simplesmente não corresponde a pessoas reais aptas a votar na localidade. Essa nuance é vital para compreender que a abstenção não é apenas um reflexo da desmobilização ou desinteresse político, mas também um espelho das deficiências no sistema de registro eleitoral, que podem levar a interpretações equivocadas do engajamento cívico. A análise da abstenção, portanto, exige uma visão que contemple tanto os fatores sociais e políticos quanto as inconsistências nos dados, garantindo uma leitura mais precisa do comportamento eleitoral.

As variações observadas nas taxas de abstenção entre diferentes bairros de Rio e São Paulo, aliadas às ressalvas sobre a precisão dos registros eleitorais, sublinham a complexidade do comportamento do eleitorado brasileiro. Compreender esses padrões é essencial para analisar o cenário político, as estratégias de campanha e a própria saúde da democracia. Para aprofundar sua compreensão sobre os desafios da participação cívica e as nuances do cenário político brasileiro, continue acompanhando as análises e reportagens exclusivas do Capital MT, seu portal de informação relevante e contextualizada, que se compromete com a apuração e a entrega de conteúdo de qualidade para você.

Fonte: https://oglobo.globo.com

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