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Raquel Lyra se desculpa após fala polêmica sobre laqueadura ‘sem consentimento’ em mulher com sete filhos

Imagens foram divulgadas pelo portal Metrópoles — Foto: Reprodução

Um vídeo viralizado neste domingo expôs a governadora de Pernambuco e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), em uma situação controversa. Nas imagens, gravadas em maio de 2025 durante a inauguração da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns, no Agreste pernambucano, Lyra sugere que uma mulher com sete filhos deveria ser submetida a uma laqueadura “sem ela saber”. A declaração gerou imediata repercussão negativa, levando a governadora a se desculpar publicamente por meio de nota e vídeo em suas redes sociais.

O episódio reacende o debate sobre planejamento familiar, autonomia da mulher e os limites da atuação política em questões de saúde reprodutiva, inserindo-se em um cenário eleitoral já bastante acirrado no estado. A fala da governadora, que é mãe e mulher, contradiz princípios básicos de ética médica e direitos humanos, que defendem o consentimento informado e a liberdade de escolha em procedimentos de saúde.

A fala que gerou a polêmica

No vídeo, a governadora escuta a história de uma pessoa que havia engravidado pela sétima vez. Diante do relato, Raquel Lyra expressa sua opinião de forma direta: “Aí tem que fazer laqueadura, visse? A gente bota na fila da laqueadura. Isso eu posso fazer”. A declaração, por si só, já seria questionável em termos de privacidade e prerrogativa médica, mas o que causou maior estranhamento e revolta foi a sequência: “Mas faz sem ela saber”.

A laqueadura tubária é um procedimento cirúrgico que interrompe a comunicação entre o ovário e o útero, impedindo a passagem dos óvulos e, consequentemente, a gravidez. No Brasil, a Lei nº 9.263/96, que trata do planejamento familiar, estabelece critérios rigorosos para a realização da esterilização voluntária, incluindo a necessidade de consentimento expresso da mulher ou do casal, idade mínima (geralmente 21 anos ou dois filhos vivos) e um período de reflexão entre a manifestação da vontade e a cirurgia. A sugestão de realizar o procedimento sem o conhecimento da paciente viola flagrantemente esses preceitos legais e éticos, que visam garantir a autonomia reprodutiva da mulher.

A repercussão e o pedido de desculpas

A gravação, revelada pelo portal Metrópoles, rapidamente se espalhou pelas redes sociais, provocando uma enxurrada de críticas e indignação. Entidades de defesa dos direitos da mulher, profissionais de saúde e parte da opinião pública manifestaram repúdio à ideia de submeter alguém a um procedimento médico invasivo e definitivo sem seu consentimento. A principal argumentação reside na inalienável autonomia do corpo feminino, um direito fundamental que não pode ser condicionado a julgamentos externos sobre a capacidade ou adequação de uma mulher para decidir sobre sua própria vida reprodutiva.

Diante da avalanche de reações, a candidata à reeleição agiu prontamente, emitindo uma nota e divulgando um vídeo em suas plataformas digitais para pedir desculpas. Em seu pronunciamento, Lyra buscou justificar e contextualizar a fala: “Como mãe, como mulher, eu sei o desafio que é decidir sobre o planejamento familiar. Essa fala minha em nada traduz o respeito que eu tenho às mulheres. Por isso, eu peço desculpas. Foi uma fala equivocada. Eu não tenho compromisso com o erro.” Na nota, ela complementou que “reconhece que a fala feita em Garanhuns foi infeliz e reafirma seu respeito às mulheres”, e que “defende que toda mulher tenha acesso, pela rede pública, a planejamento familiar com informação e escolha, compromisso que orientou sua gestão em Pernambuco”.

O contexto da eleição em Pernambuco

O episódio insere-se em um dos pleitos mais disputados do país, conforme apontam as pesquisas de intenção de voto. A disputa pelo governo de Pernambuco é marcada por um placar apertado entre Raquel Lyra e o ex-prefeito do Recife, João Campos (PSB). A última pesquisa Datafolha indicava Lyra com 47% das intenções de voto, contra 42% de Campos, configurando um cenário de alta volatilidade e grande suscetibilidade a episódios polêmicos. A nota da governadora, ao final, também toca neste ponto, afirmando que “a eleição deve ser decidida na apresentação de propostas, não na fabricação de ataques”, sugerindo uma leitura política para a divulgação do vídeo.

A controvérsia, portanto, transcende a simples gafe, transformando-se em um ponto de inflexão na campanha, forçando os eleitores a refletir não apenas sobre as propostas dos candidatos, mas também sobre seus valores e a compreensão que demonstram em relação a direitos fundamentais e políticas públicas sensíveis. Para o eleitor pernambucano, o episódio levanta questões sobre o tipo de liderança que se deseja para o estado, especialmente no que tange à garantia de direitos e à ética na gestão pública.

Planejamento familiar e a autonomia feminina

A discussão sobre planejamento familiar é de suma importância para a saúde pública e os direitos reprodutivos no Brasil. O acesso à informação e aos métodos contraceptivos, incluindo a laqueadura e a vasectomia, deve ser universal e pautado na liberdade de escolha, sem qualquer forma de coerção ou imposição. A história do Brasil e de muitos outros países é marcada por períodos em que políticas eugenistas ou de controle populacional resultaram em esterilizações forçadas ou incentivadas de forma abusiva, especialmente em populações vulneráveis. A legislação atual e os princípios éticos da medicina buscam justamente proteger as pessoas de tais violações, assegurando que a decisão sobre ter ou não ter filhos, e quantos ter, permaneça um direito individual e consciente.

O incidente envolvendo a governadora de Pernambuco serve como um alerta para a sensibilidade e a complexidade que envolvem o debate sobre direitos reprodutivos e a necessidade de que líderes políticos compreendam profundamente o impacto de suas palavras e propostas nesse campo. A autonomia da mulher sobre seu próprio corpo é um pilar da dignidade humana e um direito conquistado a duras penas, que precisa ser constantemente defendido e reforçado no âmbito das políticas públicas e na esfera social.

Este caso específico demonstra como falas descontextualizadas ou eticamente questionáveis podem reverberar amplamente, especialmente em um ambiente político aquecido, e sublinha a responsabilidade dos jornalistas em contextualizar e aprofundar a discussão, trazendo à tona as implicações sociais e legais de tais declarações.

Acompanhe o Capital MT para mais análises e reportagens aprofundadas sobre os principais acontecimentos de Pernambuco, do Brasil e do mundo. Nosso compromisso é levar informação relevante, contextualizada e de qualidade, abordando os temas que impactam diretamente a vida dos nossos leitores com credibilidade e pluralidade de perspectivas.

Fonte: https://oglobo.globo.com

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