Em um estado de dimensões continentais como Mato Grosso, o acesso a bens culturais básicos, como o cinema, ainda é um privilégio concentrado. Para a grande maioria dos mato-grossenses, assistir a um filme em uma sala de exibição moderna não é um programa de fim de semana simples, mas uma verdadeira jornada que exige planejamento e deslocamento. Uma realidade que atinge impressionantes 90% dos municípios, evidenciando uma lacuna significativa na oferta cultural e um desafio para a política pública estadual.
Dados recentes revelam que apenas 15 dos 142 municípios de Mato Grosso possuem salas de cinema ativas. Isso significa que moradores de 127 cidades precisam viajar, muitas vezes por centenas de quilômetros, para vivenciar a experiência da tela grande. A concentração é notória: a maioria dos espaços comerciais está na Baixada Cuiabana e em alguns polos regionais estratégicos, como Rondonópolis, Sinop, Tangará da Serra, Sorriso e Barra do Garças.
Uma História de Deslocamento Pela Arte
A saga em busca do cinema não é recente para muitos. Ana de Jesus, uma professora aposentada de 66 anos, é um retrato vivo dessa realidade. Sua relação com a sétima arte começou na infância, no Paraná, quando raras sessões itinerantes, em espaços improvisados, eram o ápice da diversão anual para a comunidade rural onde vivia. "Para nós, aquilo ali era muito, era a diversão do ano, um acontecimento que a gente não estava acostumado a ter", relembra Ana, destacando o impacto cultural desses eventos esporádicos.
Anos depois, ao se mudar para Pontes e Lacerda, em Mato Grosso, a necessidade de viajar para ver um filme se intensificou. Em 1974, Ana percorreu cerca de 483 quilômetros até Cuiabá para, pela primeira vez, assistir a uma sessão em uma sala ampla e moderna. A busca por essa experiência a levou também a outras cidades, como Cáceres, demonstrando a persistência e o esforço que muitos mato-grossenses ainda hoje dedicam para acessar o que deveria ser um direito básico: a cultura.
O Custo da Cultura: Economia e Desigualdade
Diego Baraldi, professor do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), aponta que a concentração das salas de cinema está intrinsecamente ligada aos altos custos de manutenção de uma estrutura comercial de exibição. Abrir e operar um cinema exige investimentos substanciais em espaço, equipamentos de projeção e sistema de som, além da dificuldade de sustentar o negócio apenas com a receita dos ingressos em mercados menores. Este cenário econômico inviabiliza a expansão para municípios com menor densidade populacional ou poder aquisitivo.
"No Brasil, menos de 10% dos municípios têm salas de cinema comerciais ativas, e Mato Grosso reflete com exatidão esse abismo", afirma Baraldi. Ele ressalta a dimensão social do problema: "O acesso à cultura e à arte é um direito assegurado pela Constituição Federal. Quando mais de 89% dos municípios do nosso estado ficam sem uma única tela, temos um problema sério de política pública e de desigualdade de acesso aos bens culturais." A fala do professor sublinha que a ausência de cinemas não é apenas uma questão de mercado, mas uma falha sistêmica na garantia de direitos fundamentais.
Onde o Cinema Acontece e Quanto Custa
A distribuição das salas de exibição em Mato Grosso não apenas define o acesso, mas também influencia os preços dos ingressos. A região metropolitana de Cuiabá e Várzea Grande concentra a maior infraestrutura, com mais de 20 salas comerciais em quatro complexos na capital (Cinépolis, Cineflix, Multiplex Cine Araújo, Cine Laser) e um em Várzea Grande (Cineflix). Os preços na capital variam de R$ 28 a R$ 60, dependendo do cinema, dia da semana e formato da sessão, oferecendo mais opções e concorrência.
No interior, as salas comerciais estão presentes em cidades como Rondonópolis (Cine Vip), Sinop (Moviecom e Cine Center Machado), Sorriso, Tangará da Serra, Barra do Garças, Cáceres, Lucas do Rio Verde, Pontes e Lacerda, Primavera do Leste, Campo Verde, Alta Floresta, Nova Mutum e Guarantã do Norte. Contudo, a variação de preços também é notável. Em Rondonópolis, as entradas podem ser encontradas entre R$ 12 e R$ 22. Em Sinop, oscilam de R$ 22 a R$ 44, e em Nova Mutum, de R$ 32 a R$ 44. Já a Rede Cine Xin, presente em Cáceres e outras cidades, oferece ingressos de R$ 27,36 na sala convencional a R$ 36,48 no espaço VIP.
O Custo Oculto da Experiência Cinematográfica
Para quem vive em um dos 127 municípios sem cinema, o valor do ingresso é apenas uma fração do custo total. A distância impõe despesas adicionais e significativas com transporte – seja combustível para veículos próprios ou passagens de ônibus. Soma-se a isso os gastos com alimentação durante a viagem e, em alguns casos, até mesmo com hospedagem, transformando um simples lazer em um investimento substancial. Essa soma de custos não só encarece a cultura, mas também a torna inacessível para muitas famílias, aprofundando a desigualdade cultural e social no estado.
Desdobramentos e Reflexões
A disparidade no acesso ao cinema em Mato Grosso levanta questões importantes sobre o papel do poder público e da iniciativa privada na democratização cultural. Enquanto a viabilidade econômica é um fator inegável, a garantia do direito à cultura, como apontado pelo professor Baraldi, sugere a necessidade de discutir modelos alternativos, como incentivos fiscais, parcerias público-privadas ou a criação de programas de fomento à exibição em cidades menores, talvez com salas multiuso ou projetos itinerantes mais frequentes e bem estruturados.
A tela grande tem um poder inegável de conectar pessoas, contar histórias e enriquecer o imaginário coletivo. Em um estado tão rico culturalmente quanto Mato Grosso, garantir que mais de seus cidadãos possam desfrutar dessa experiência não é apenas uma questão de lazer, mas de justiça social e desenvolvimento humano. É um convite para que se reflita sobre como a cultura pode e deve alcançar todos os cantos do nosso território, sem exigir que se cruze metade do estado para isso.
Acompanhe o Capital MT para mais análises e reportagens que aprofundam os temas mais relevantes para Mato Grosso e para o Brasil. Nosso compromisso é levar informação de qualidade, contextualizada e que realmente faça a diferença na compreensão dos fatos que moldam nossa realidade.
Fonte: https://g1.globo.com