A corrida pelo governo de Alagoas ganha contornos de um complexo xadrez político, onde a influência de grupos locais se revela decisiva na composição das chapas majoritárias. Em um movimento que sublinha a capilaridade do poder no interior do estado, o grupo político do prefeito de Arapiraca, Luciano Barbosa (MDB), conseguiu a proeza de posicionar nomes de sua confiança como vices tanto na chapa de JHC (PSDB), quanto na de Renan Filho (MDB), os dois principais concorrentes ao cargo máximo do executivo alagoano.
Essa manobra estratégica, que destaca a habilidade de Barbosa em transitar por diferentes espectros políticos, inseriu Célia Rocha (PSDB) como a companheira de chapa de JHC e Yale Fernandes (MDB) ao lado de Renan Filho. Ambos os escolhidos possuem uma trajetória política fortemente vinculada a Arapiraca, a segunda maior cidade de Alagoas, e, por extensão, ao grupo que Luciano Barbosa lidera, projetando a influência do Agreste alagoano diretamente para o centro da disputa estadual.
A Maestria Política de Luciano Barbosa e as Repercussões Internas
Arapiraca, com uma população de cerca de 234 mil habitantes, transcende sua condição de segundo maior município alagoano para se firmar como um polo de irradiação política e econômica no Agreste. A capacidade de Luciano Barbosa em articular-se com grupos que, à primeira vista, seriam antagônicos, é um testemunho de sua experiência e influência. Historicamente aliado da família Calheiros, ele também mantém um diálogo aberto e produtivo com outras forças políticas do estado e do país, como Arthur Lira (PP) e o próprio JHC, demonstrando uma versatilidade incomum no cenário polarizado.
Essa teia de relações se estende até a própria estrutura familiar do prefeito. Seu filho mais velho, Daniel Barbosa, é deputado federal filiado ao PP, partido de Arthur Lira, enquanto o caçula, Lucas Barbosa, está no PSDB, mesma sigla de JHC. Essa distribuição estratégica de membros da família em diferentes legendas amplia o leque de influência do grupo de Arapiraca, assegurando representatividade e interlocução em diversas frentes, independentemente do resultado final da eleição.
Internamente, contudo, a jogada não foi isenta de fricções. Setores do MDB expressaram desconforto, avaliando que outras forças da base aliada de Renan Filho foram preteridas em favor de um nome ligado diretamente ao grupo de Barbosa. Há quem questione se a escolha de Yale Fernandes, que foi secretário de Luciano, garante o apoio irrestrito do prefeito à candidatura de Renan Filho em Arapiraca, considerando sua participação na construção da chapa de JHC. Essa dualidade expõe as complexas lealdades e os cálculos estratégicos por trás das alianças eleitorais.
Os Bastidores das Definições e a Ligação Política dos Vices
A sequência dos anúncios dos vices também denota a intensa dinâmica dos bastidores. JHC foi o primeiro a confirmar Célia Rocha, no sábado (15), seguido, poucas horas depois, pela confirmação de Yale Fernandes por Renan Filho. A definição de Yale vinha sendo protelada desde a convenção do MDB, quando Marina Lamenha, auxiliar de Renan Calheiros em Maceió, havia sido inicialmente cogitada. Essa proximidade temporal entre os anúncios evidencia a disputa acirrada por apoios estratégicos, com Arapiraca emergindo como um fiel da balança.
A ligação política entre Célia Rocha e Yale Fernandes é direta e profunda: ela foi prefeita de Arapiraca em diferentes mandatos, de 1997 a 2016, e ele atuou como seu vice em sua última gestão. Essa parceria anterior reforça a percepção de que ambos são parte de um mesmo núcleo político, agora desdobrado em chapas opostas, mas mantendo a ascendência do grupo de Barbosa como um elo comum. Isso ressalta a importância de entender a política alagoana não apenas por partidos, mas por grupos de poder consolidados em determinadas regiões.
A disputa em Alagoas frequentemente se desenha entre a capital e o interior. Enquanto JHC consolida sua força em Maceió, onde foi reeleito prefeito com uma votação expressiva em 2024, Renan Filho busca sustentar sua ampla base de apoio no interior, estimando o respaldo de uma vasta maioria dos 102 municípios alagoanos. Nesse cenário, o controle de Arapiraca, por seu peso eleitoral e influência regional, torna-se um ativo estratégico valioso, capaz de inclinar a balança para qualquer um dos lados.
A decisão de JHC de convidar Célia Rocha também foi precedida de incertezas. O tucano chegou a se reunir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e manteve a dúvida sobre se concorreria ao governo ou ao Senado até os últimos dias. Nomes como Lucas Barbosa e o atual vice-governador Ronaldo Lessa (PDT) chegaram a ser avaliados para a vice. A escolha por Célia, contudo, selou a aposta na força política de Arapiraca, um movimento que demonstra a relevância do município na configuração do tabuleiro eleitoral.
A Investigação sobre a Desincompatibilização de Yale Fernandes
Um novo capítulo na saga da chapa de Renan Filho surgiu com a abertura de um procedimento pelo Ministério Público Eleitoral (MPE) para verificar a desincompatibilização de Yale Fernandes. A legislação eleitoral exige o afastamento de certas funções públicas seis meses antes do pleito para que um candidato possa concorrer.
Yale Fernandes formalmente deixou o cargo de secretário executivo da Coordenação Geral de Articulação Institucional da Prefeitura de Arapiraca dentro do prazo legal. Contudo, foi posteriormente nomeado para a função de assessor técnico especial I na mesma administração. A investigação, conduzida pelo promotor eleitoral Maurício Amaral Wanderley, visa esclarecer se essa mudança de cargo representou um afastamento efetivo das funções de chefia e do núcleo decisório da prefeitura, ou se houve uma continuidade material das atribuições, o que poderia configurar uma irregularidade eleitoral.
A Prefeitura de Arapiraca e o secretário municipal de Administração foram intimados a apresentar, em 24 horas, documentos detalhando as atribuições do cargo ocupado por Yale, sua posição hierárquica e as atividades desempenhadas entre abril e julho. É crucial ressaltar que o procedimento não conclui pela existência de irregularidade, mas busca justamente verificar o cumprimento da legislação. Contudo, a simples abertura da investigação já adiciona um elemento de incerteza à chapa, lembrando aos eleitores a importância da transparência e do rigor na observância das regras do jogo democrático.
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Fonte: https://oglobo.globo.com