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No Ceará, Ciro Gomes e Camilo Santana abrem campanha trocando farpas e acusações de ‘coronelismo’

O primeiro dia de campanha eleitoral no Ceará foi palco de um acirrado embate entre o candidato ao governo estadual Ciro Gomes (PSDB) e o senador Camilo Santana (PT). Em lados opostos da disputa pelo Executivo cearense, os dois políticos, figuras centrais na política local e nacional, trocaram duras acusações, com o termo 'coronel' sendo usado para desqualificar o adversário. O pano de fundo das farpas é a judicialização de apoios de federações partidárias, um componente estratégico que tem esquentado os ânimos logo na largada.

Durante um evento no Mercado Central, em Fortaleza, Ciro Gomes dirigiu críticas contundentes a Camilo Santana, então aliado do atual governador Elmano de Freitas (PT), que, segundo pesquisas recentes, figura atrás de Ciro. O tucano não hesitou em classificar o senador como o 'novo coronel do Ceará'. Ciro também acusou a base governista de Elmano de 'interferir de forma abusiva no Judiciário' na tentativa de 'melar' o apoio da federação União Progressista à sua chapa. A referência foi clara às ações movidas na Justiça Eleitoral.

Em resposta, durante o ato inaugural da campanha de Elmano no bairro Pirambu, Camilo Santana rebateu as acusações, interpretando-as como um sinal de 'desespero' por parte de Ciro. O senador esclareceu que as ações judiciais foram iniciativa dos presidentes estaduais dos partidos integrantes da federação, rechaçando a insinuação de interferência. Santana não poupou o adversário: 'Não há nada de coronel. O coronel é ele (Ciro), que acha que manda no Ceará', declarou, associando ainda Ciro ao 'bolsonarismo' no estado, numa clara tentativa de polarizar a disputa.

O Peso Histórico do 'Coronelismo' na Política Cearense

A troca de acusações que evoca o 'coronelismo' não é casual e carrega um profundo significado histórico e social, especialmente na política nordestina. O coronelismo, fenômeno político predominante na Primeira República (1889-1930), caracterizava-se pelo controle de grandes proprietários de terras (coronéis) sobre a vida política e social de suas regiões. Por meio de redes de clientelismo, favor e, muitas vezes, coerção, esses 'coronéis' exerciam influência decisiva sobre os votos e a administração pública local, criando verdadeiros 'currais eleitorais'. Em estados como o Ceará, essa estrutura de poder deixou marcas profundas na memória coletiva e na dinâmica política.

Hoje, o termo 'coronel' é utilizado como um potente anátema, um insulto que remete a práticas políticas antidemocráticas, autoritárias e personalistas. Acusar um adversário de 'coronelismo' é sugerir que ele busca manter o poder a qualquer custo, por meios escusos ou manipuladores, em detrimento dos princípios democráticos e da livre escolha do eleitor. Essa terminologia ressoa forte no imaginário popular, transformando a disputa não apenas em uma batalha por votos, mas por legitimidade e pela própria imagem de defensor da democracia.

A Complexa Ruptura de uma Aliança Duradoura

A animosidade entre Ciro Gomes e Camilo Santana é um desdobramento de uma complexa ruptura que reconfigurou o cenário político cearense. Até 2022, ambos faziam parte da mesma aliança política que dominou o estado por anos, com Ciro sendo uma figura central para o grupo. A crise eclodiu com as eleições estaduais daquele ano, quando Camilo defendia a continuidade da então governadora Izolda Cela, que havia assumido após sua saída para concorrer ao Senado. Ciro, por sua vez, bancou a candidatura de seu aliado, o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio, pelo PDT. A decisão de Ciro visava também garantir um palanque robusto no Ceará para sua própria campanha à Presidência da República.

A divergência levou a um racha histórico. Contrariado com a postura de Ciro, o Partido dos Trabalhadores rompeu com o PDT no estado e lançou a candidatura de Elmano de Freitas ao governo, tendo Camilo Santana como um de seus principais articuladores. Elmano foi eleito com 54,02% dos votos, consolidando a vitória do PT e o novo arranjo político que colocou Ciro e seu grupo na oposição, alterando drasticamente a dinâmica de poder que existia por décadas no estado. Esse passado recente é fundamental para entender a profundidade das acusações e a intensidade da atual disputa.

Pesquisas, Estratégias e a Judicialização do Processo

O cenário eleitoral cearense, conforme a mais recente pesquisa Datafolha, aponta Ciro Gomes com vantagem, marcando 52% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Elmano de Freitas. Em uma simulação de segundo turno, Ciro também lidera com 55% contra 37% do petista. Essa vantagem nas pesquisas adiciona uma camada de urgência e agressividade à campanha, motivando as estratégias de ataque e defesa observadas na largada.

A campanha de Elmano, articulada por Camilo Santana, aposta na boa avaliação da gestão governamental e na forte presença do presidente Lula em agendas no estado para alavancar as intenções de voto. A tentativa de associar Ciro ao bolsonarismo é uma tática para fragilizar sua base eleitoral e capitalizar o antipolarização. Do outro lado, Ciro Gomes, que encabeça uma chapa composta pela federação União-PP e pelo PL, foca no discurso da segurança pública e em críticas diretas aos governos petistas, buscando resgatar seu 'espólio político' e a percepção de ser uma força capaz de mudar os rumos do estado.

A judicialização de apoios partidários, como o impasse envolvendo a federação União Progressista, é uma tática recorrente na política brasileira. O Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE) rejeitou, até o momento, duas ações da base de Elmano que buscavam anular a coligação da federação com Ciro. Tais disputas legais evidenciam como a batalha eleitoral não se restringe apenas aos palanques e debates, mas se estende aos tribunais, onde a conformação das alianças pode ser determinante para o resultado final, gerando um ambiente de incerteza e constante atrito entre os grupos políticos.

A disputa no Ceará, com seus personagens políticos de longa data e a intensidade das acusações, reflete não apenas uma eleição estadual, mas um embate de narrativas e projetos que impactará diretamente o futuro do estado. Acompanhar os desdobramentos dessa campanha é observar como as forças políticas se reorganizam e quais estratégias são empregadas para conquistar o eleitorado. O Capital MT segue atento, trazendo as informações mais relevantes e contextualizadas para que você compreenda a fundo cada movimento desse complexo tabuleiro eleitoral.

Fonte: https://oglobo.globo.com

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