Há quase um século, o coronel britânico Percy Fawcett desaparecia em algum ponto
isolado do Mato Grosso, em busca de um portal para a Cidade Z. Acompanhado de seu filho Jack e do amigo Raleigh Rimell, Fawcett sumiu sem deixar pistas sobre a Cidade Abandonada, como esse suposto local na região da Serra do
Roncador também era conhecido.
Diz a lenda, inclusive, que aquele destino a mais de 500 quilômetros de Cuiabá seria
uma passagem secreta para uma civilização perdida.
Fawcett tinha certeza que o cobiçado local ficava no Brasil e partiu de Cuiabá para
uma “das matas mais intratáveis da Amazônia”, nas palavras de David Grann, cuja
biografia Z, a Cidade Perdida (Companhia das Letras) ganhou uma adaptação
desastrosa para o cinema, em 2017.
Por séculos, a Amazônia foi tratada como uma terra hostil, de onde nenhuma
expedição retornava para contar história. Ficavam por ali mesmo, engordando a lista de
desaparecimentos intrigantes na maior floresta tropical do planeta.
Mas a expedição encabeçada por Fawcett não foi apenas mais uma delas, nem passou
despercebida pelos olhos curiosos do mundo.
Curiosidades sobre Fawcett no Mato Grosso
A insistência em encontrar o tal portal para a Cidade Z era baseada em suas
experiências no antigo Ceilão, onde encontrou ruínas de um antigo templo com
inscrições desconhecidas, e no Documento 512, uma carta com caracteres que davam
pistas da localização de uma cidade perdida no Brasil.
Suas teorias ganhariam novos elementos quando o amigo Rider Haggard (autor de As
minas do rei Salomão) o presenteou com uma estátua, supostamente, do Brasil. As
peças começavam a se encaixar e Fawcett, cada vez mais, tinha certeza de que a
estátua encontrada no Brasil era de Atlântida.
Porém, antes de sua viagem fatal, o britânico já havia realizado sete expedições em
áreas não mapeadas na América do Sul, entre 1906 e 1924.
Para sua última viagem, chegou a solicitar apoio ao então presidente do Brasil, Epitácio
Pessoa, mas o militar Cândido Rondon recusou o pedido, já que o país não precisava
de estrangeiros em suas expedições em território nacional.
Após iniciar a viagem, Fawcett chegou a enviar cartas à esposa Nina que não traziam
sua localização exata ou eram escritas com informações imprecisas. O explorador, que
alguns estudiosos creem que buscava pedras preciosas e um título que lhe desse fama
mundial, queria mesmo exclusividade em sua descoberta.
Com seu inconfundível chapéu Stetson e um gosto exagerado por aventuras, Fawcett
ficaria conhecido como O Verdadeiro Indiana Jones. Mas nunca mais seria encontrado,
nem aqui, nem em outras dimensões.
“Fawcett queria realizar a maior descoberta do século, mas protagonizou o maior
mistério da exploração do século XX”, analisa o biógrafo David Grann, em seu livro.
Já para Hermes Leal, autor de O enigma do Coronel Fawcett – o verdadeiro Indiana
Jones (ed. Geração), “Fawcett não foi um explorador científico, mas deixou um legado
para a literatura e para as aventuras.”
Assim, nos anos seguintes ao seu desaparecimento, várias buscas foram organizadas
para encontrar o paradeiro do trio, como a Expedição Dyott – da qual participou o filho
mais novo do britânico, Brian Fawcett.
Outras expedições famosas foram a financiada pelo empresário Assis Chateaubriand,
que deu origem à série de reportagens Haverá uma Atlântida brasileira?, e a de
Antonio Callado, em que o indigenista Orlando Villas Boas afirmava ter encontrada a
suposta ossada de Fawcett.
Em abril de 1951, Orlando Villas Boas ouvira o relato de um Kalapalo sobre o
assassinato dos três desaparecidos. Cuiuli, o informante, afirmava que o assassino
Cavucuira, naquele momento já morto, jogara os dois jovens na Lagoa Verde e
enterrara Fawcett perto dali.
Mas exames do Royal Anthropological Institute de Londres e um dentista que tratara o
coronel, no Rio de Janeiro, desmentiram a descoberta e Villas Boas passaria quase
duas décadas sem saber o que fazer com a ossada.
Assim como lembra Brian Fawcett no livro A Expedição Fawcett: jornada para a cidade
perdida de Z (ed. Record), “as pessoas que encontram tesouros geralmente estão
ansiosas em manter o fato em segredo”.
E, daquela vez, parece que Percy Fawcett conseguiu.
Com informações do Terra